CRÔNICA DA SEMANA
NA VIDA,
O QUE É BELO É SER TOCÁVEL
(Aline Menezes)
Ao longo de nossa
vida, carregamos conosco grande quantidade de material corrosivo, o
qual destrói aqueles que atravessam o nosso caminho e,
principalmente, contamina a nós mesmos.
Tenho aprendido que a
nossa interioridade é indecifrável, que ninguém (nem eu, nem você)
tem condições de definir ou explicar tudo o que nos constitui internamente. Há
uma parte da existência humana que é incapturável. Por mais sensíveis que
sejamos (e alguns têm sensibilidade extremada e bela), é tarefa insana
querer compreender completamente o que existe de mais profundo em
nossa alma. Resta-nos apenas a abertura para enxergarmos o mais longe
possível, a fim de não nos tornarmos indiferentes à dor alheia, nem muito menos
à dor que nos envolve, para não nos tornarmos cínicos.
Ainda
tenho muitas dificuldades de me recuperar após uma experiência de dor e
sofrimento. Os meus passos, se em direção ao comportamento dos resignados,
são quase sempre lentos e desproporcionais. Isso porque as minhas
experiências negativas ganham em mim dimensões gigantescas. Sou um
ser exagerado, até nas escolhas das palavras e das expressões: sou a hipérbole
do mundo.
Às vezes,
percebo nas pessoas (e em mim) coisas tão diabólicas, que me assusto. Vejo e
sinto a atmosfera do ambiente físico, emocional e afetivo. Estou em contato com
a pele, sempre, mas a pele de dentro. Sinto tudo de maneira bem particular, bem
íntima. Absorvo a vida. Porque, não nos enganemos, somos impelidos para a
morte.
Mas, como
eu disse, carregamos conosco grande quantidade de material corrosivo. Tem gente
que é pura acidez. Que é tóxica. Às vezes, somos todos assim. Exalamos
substâncias que provocam queimaduras, danificam irreversivelmente o
que antes era tecido ou matéria viva.
É necessário
ter olhar atento para perceber o outro em meio a tantas agitações.
É necessário observar o corpo que se move em nossa frente.
É necessário ter cuidado, saber segurar delicadamente a respiração do
outro. A indiferença às experiências humanas é algo doloso.
De modo
definitivo, não sou o tipo de pessoa que acha a vida linda, não vejo
razões para isso. As pessoas, quase sempre, são seres insuportáveis,
dissimulados, vaidosos e egoístas; o mundo, uma insanidade estúpida,
hipócrita e desnecessária. Porém, incrivelmente me adapto à constatação de
que há muita beleza por aqui. Que é possível continuar lutando e absorvendo o
que ela, a vida, tem de melhor. E ela tem muita coisa melhor e bela! É
possível evitar que substâncias corrosivas atuem sobre nós e sobre os outros.
Muitos de
nós já fomos tão corroídos (e já corroemos), que nos tornamos incapazes de
permitir contato. Rendemo-nos à própria bolha formada em todo o nosso corpo.
Sentir o toque é algo necessário e essencial à existência.
Precisamos
nos render a tudo que é belo, a tudo que é delicado, a tudo que é único.
Precisamos estender o nosso corpo sobre o tapete de seda, fechar os olhos com
segurança e sem medo, respirar devagar, pausadamente, e sentir quando alguém ou
algo nos toca de modo profundo.
Precisamos,
de uma vez por todas, deixar as mãos afáveis da vida cuidarem das nossas
queimaduras, das bolhas, umedecerem a secura causada pelas experiências
negativas, penetrarem a pele e alcançarem a alma novamente. Porque, na vida, o
que é belo é ser tocável.
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