CRÔNICA DA SEMANA
O SEGUNDO DEUS
(Vivaldo
Bernardes)
“Cessa tudo o que a
antiga moral canta porque outro valor mais alto se alevanta”.
Mudada uma palavra, os versos de Camões
servem como uma luva aos tempos atuais.
Mas, que valor é esse que de tão grande
sobrepuja a própria moral, a própria honra? O que poderia impor-se mais alto
que elas? Por que essa subordinação exacerbada, soberana e extremamente
inevitável ao homem deste milênio? Que razões geram essa dependência intrínseca
definidora do presente, do futuro, enfim, do destino das almas neste grãozinho
do Universo?
Tremendo paradoxo!... criado e
alimentado pela insensatez das diminutas dimensões neurônicas, cegas, surdas e
mudas a todos e quaisquer interesses que não lhes possa sustentar o momento de
superioridade material e monetária, mesmo em detrimento da evolução anímica
neste estágio terreno.
É justo, natural e até louvável a busca
do bem-estar e do conforto gerados pelo poder do cifrão, na medida do
necessário, do indispensável à digna sobrevivência do homem de bem, desde que
esse desejo não se sobreponha à razão por fortunas escamoteadas, ao arrepio do
bom-senso.
A dependência hodierna ao chamado “vil
metal” cresce assustadoramente na medida em que a ciência tecnológica avança,
tornando obsoleto hoje o que era novidade ontem, o que obriga a sociedade mais
carente a fazer das tripas coração para se considerar atualizada e se
equilibrar no arame esticado do salário mínimo.
No fundo, a ânsia e adoração pela moeda
é assunto corrente nos bares e botecos aos luxuosos gabinetes das altas
estirpes, onde se discute a alta do dólar no câmbio mundial, tudo calculado
numa fração de segundo porque tempo é dinheiro e a bolsa de valores não deve
perder tempo.
A subserviência à moeda é tanta que
fará, um dia, o homem tirar o chapéu a um cachorro se ele tiver dinheiro.
Vil metal!... Onde há vileza senão no
homem que o usa inescrupulosamente e o adora como se inclina ante um bezerro de
ouro?
Que dizer do lamentável suborno de Judas
Iscariotes, que vendeu o próprio Cristo por trinta dinheiros, trinta dinheiros
que o lançaram ao inferno dos suicidas?
No século atual, o prestígio social do
cidadão equivale ao peso da sua conta bancária e ponto final!...
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