CRÔNICA DA SEMANA
AFINIDADE
(Arthur da Távola)
Afinidade é
um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e ao depois. A afinidade não é
o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. E o
mais independente também.
Não importa o
tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades... Quando
há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o
afeto no exato ponto em que foi interrompido.
Ter afinidade é muito raro. Mas quando existe não precisa de códigos
verbais para se manifestar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e
permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas.
Afinidade é
ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam,
comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavras, é receber o que
vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.
Não é sentir
nem sentir contra...
Nem sentir
para...
Nem sentir
por...
Nem sentir
pelo...
Afinidade é
sentir com.
Sentir com é
não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber... É
mais calar do que falar, ou, quando falar, jamais explicar: apenas afirmar.
Afinidade é
ter perdas semelhantes e iguais esperanças. É conversar no silêncio, tanto nas
possibilidades exercidas quanto das impossibilidades vividas. Afinidade é
retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo de separação. Porque
tempo e separação nunca existiram, foram apenas oportunidades dadas pela
vida.
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