CRÔNICA DA SEMANA
AUSÊNCIA
Eu deixarei que morra em mim o desejo de
amar teus olhos que são doces porque nada te poderei dar senão a mágoa de me
veres eternamente exausto. No entanto, a tua presença é qualquer coisa como a
luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a
tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo
estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados para
que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada que ficou sobre
a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua
face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu
desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite; porque eu encostei minha face na face
da noite e ouvi a tua fala amorosa; porque meus dedos enlaçaram os dedos da
névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu
abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos
pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E
todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas serão a
tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz perenizada...
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