sexta-feira, 26 de agosto de 2011

UM DEDO DE PROSA

... PORÉM, E OS DEVERES?

Cá estou eu mais uma vez para manifestar a minha indignação com o EXCESSO DE PROTECIONISMO aos delinqüentes juvenis.
Quando se fala em crimes praticados por adolescentes e a imediata prisão desses infratores, os órgãos responsáveis pelo BEM-ESTAR físico e moral dessas “crianças” logo aparecem para reivindicar os seus DIREITOS. Em momento algum os DEVERES desses MINI-MARGINAIS são mencionados. Será que eles não os têm?
Semana passada, eu e o Brasil inteiro vimos pela televisão imagens de “crianças” fazendo arrastões, sendo APREENDIDAS e promovendo quebra-quebra por onde passaram. Hoje, assisti – também pela TV - a cenas de selvageria praticada por adolescentes: em Minas Gerais, um rapaz de 15 anos (ainda na 5ª série ou 6º ano, como acharem melhor!) agrediu, COVARDEMENTE, a pontapés a Diretora da escola em que estuda, e ainda saiu ameaçando-a de morte; em Brasília, dois adolescentes assaltaram um posto de gasolina, e não satisfeitos, agrediram o frentista e um motociclista que lá chegara para abastecer. Nesse último, os agressores desferiram-lhe violentos socos, pontapés e facadas. O rapaz só não foi morto por PROVIDÊNCIA DIVINA (única garantia de proteção ao cidadão de bem): ele fora salvo com a chegada de um veículo que afugentou os agressores.
E o que irá acontecer a esse bandidos? Nada!... Simplesmente nada!...
A polícia até que faz a sua parte: prende-os!... ôpa!... Prende-os não! APREENDE-OS!... Mas a (in)Justiça solta.
Certamente, após lerem este texto, o pouco prestígio que tenho com os meus seguidores irá diminuir, mas não dá mais para ficar calado diante da INÉRCIA dos legisladores e magistrados que nada fazem para alterar um artigo sequer da tal LICENÇA PARA MATAR, ROUBRAR E ESTUPRAR, dada aos aprendizes de bandido em 13 de julho de 1990 por meio da Lei 8069.
Será que os errados somos nós, cuja cota de DEVERES e OBRIGAÇÕES vive numa crescente acentuada?
MEUS VERSOS LÍRICOS

SONETO A PLANALTINA
(Joésio Menezes)

Planaltina!... oh, Planaltina!...
Jamais me esquecerei de ti.
Nem de ti nem das cristalinas
Águas que nascem por aqui.


Jamais me esquecerei, Planaltina,
Das maravilhas que vivi
Naquela casa pequenina
Da quadra um do Buriti.

Também jamais me esquecerei
Dos amigos que conquistei
Nas tuas terras, Planaltina.

E para sempre hei de exaltar
As riquezas desse lugar
Cuja história me fascina...


PLANALTINA
(Joésio Menezes)

Pelas antigas ruas da cidade,
Lembranças me vêm à mente
Aguçando a intensa saudade
Nesse meu peito existente:
Alamedas conheci, é verdade,
Lamento, pois, veementemente
Tê-las perdido com a prosperidade
Inda quando era adolescente.
No entanto, nessa Feliz Cidade
Aprendi, inclusive, a ser gente


Minha singela homenagem a Planaltina-DF, por ocasião do seu 152º aniversário, comemorado em 19/08.
O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA

ÁGUA DOCE DO RIO
(Terê Penhabe)

A água do rio é doce
só até chegar no mar,
pois quer queira ou não queira
ele sempre há de chegar.
E ele vem petulante,
certo de que irá adoçar
com sua mansidão de longe
toda a violência do mar.
Ao perceber seu engano
se enfurece e quer voltar,
mas é sempre muito tarde
que a pororoca se dá.
O mar, em contradição,
abre os braços e o recebe
no melhor do coração
como o amor que lhe apetece.
Nessa suave união
corpos se banham felizes
sentindo o sal do mar
e a mansidão do aprendiz.
Que sem ter pra onde ir
aceita seu novo destino
vai entrando com carinho
no gigante tão humilde.
Essa magia tão bela
que ao rio, o mar aquartela
vale a pena conhecer.
Sentir na alma e na pele
a carícia inconfundível
de águas doces que se salgam
deixando então de ser rios.


AMOR SERELEPE
(Patrícia Ximenes)

Feito um vento menino
O amor chegou com jeitinho
De surpresa e coladinho
Com seu carinho a espalhar.
Por ser tão inquieto
Nem se quer se importou
Trouxe a alegria pra perto
Balançou e inebriou.
Sacudiu as tristezas amarelas
Levou o abraço apertado
Pintou cores de aquarela
Trouxe versos tão desejados.
O coração não se desculpa
Cuida, pula e como pulsa!
Mas para sair do peito
Isso aí não teve jeito.
Unidos pela divina existência
O coração tem um certo calor
Essa é a mais pura essência
Do sentimento chamado amor.

CRÔNICA DA SEMANA

A MELHOR CASA DO MUNDO
(Fernanda Pinho)

O que eu faço da vida? Definindo simploriamente, escrevo sobre casas. Apartamentos triplex, puro mármore carrara, com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Mansões sustentáveis com telhados verdes, referência arquitetônica em Cingapura. Moradas espanholas esculpidas em concreto, praticamente obras de arte contemporânea. Lofts californianos, ousadia em layout, mobiliário e design.
Escrevo com honestidade, gosto do que faço e, obviamente, sempre que abro o material fotográfico, a primeira coisa que me passa pela cabeça é “ah, se eu morasse nessa casa”. Mas não passa de um suspiro. Não chega a ser uma ambição nem ao menos um desejo. Não sou de muitas pretensões. Sou de uma pretensão única: ser feliz. E, sabe, eu consigo ser feliz na minha própria casa. Pode parecer romântico, ingênuo ou até forçado o que eu vou dizer, mas eu realmente acredito que o que faz de uma casa um lar não é o material que a construiu, mas os sentimentos que a mantém erguida. A intimidade que temos com a casa é proporcional à cumplicidade que temos com as pessoas que moram conosco.
A fachada do meu prédio não é revestida de granito negro universo. Minha sala não tem pé-direito duplo. Não tenho vista para a Serra do Curral. Não há uma adega climatizada embaixo da escada, nem lareira, nem banheira. E nada disso impede que seja o único lugar em todo esse planeta onde eu me sinto verdadeiramente tranquila, confortável e segura. Pois eu sei que a tesoura está sempre na primeira gaveta do banheiro. Que se eu abrir muito a torneira do tanque, o fluxo de água da pia da cozinha vai diminuir. Que a lampadazinha do corredor ficou sete anos queimada. Que no chaveiro de metal não tem chave que abre o portão. Que as fotos ficam nas caixas de sapato entulhadas no maleiro da estante da salinha de TV. Que o tapete da sala foi feito pela minha mãe. Que só sentamos à mesa de jantar se houver visita. Que se a visita for muito importante, a mesa será coberta com o forro de linho branco. Que os enfeites de natal estão numa caixa, na estante da sala. Que as ferramentas estão numa maletinha preta e os esmaltes numa maletinha rosa. Que o telefone da pizzaria preferida está na primeira página da agenda, e não na letra P. São banalidades, mas são as nossas banalidades. Me solta em qualquer outra casa do mundo e eu não saberei onde procurar uma tesoura. E nem quero saber. Minha tesoura está aqui. E meus tesouros também.

Fonte: Crônica do Dia

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

UM DEDO DE PROSA

CRÔNICA DO TEMPO ALADO

Quando o deus Cronos criou o Tempo, deu a ele asas para que pudesse voar livremente pelo espaço cronológico, orientando os reles mortais no que diz respeito ao passado, presente e futuro dos fatos e da vida.
E sentindo-se alado, os ponteiros do seu velocímetro giram numa velocidade incontrolável, buscando acertar o destino dos que dele dependem e a ele resistem. Porém, o giro dos seus ponteiros jamais retrocede tampouco para na órbita cronológica dos acontecimentos para que possamos consertar o que fizemos de errado numa fração de segundo ou no decorrer das nossas vidas.
Ao mesmo tempo em que o Tempo pode ser implacável para com as pessoas em relação ao desgaste físico resultante da idade, ele pode também ser um grande aliado no que diz respeito a situações que exigem um certo tempo para se tomar uma importante decisão, como o que fazer para que uma vida – em situação de risco - seja salva ou prolongada por mais algum tempo.
Geralmente, o Tempo se arrasta sem pressa alguma quando alguém está numa fila de hospital à espera de um atendimento médico. Em contrapartida, ele voa na velocidade da luz quando se tem uma vítima de afogamento esperando por socorro.
E já que o tema em questão é o Tempo, preciso encerrar essa prosa por aqui, pois o tempo de intervalo é curto e alguns alunos esperam-me em sala de aula, angustiados por causa do tempo em que estão na escola.

MEUS VERSOS LÍRICOS

POBRE CORAÇÃO!
(Joésio Menezes)

Meu pobre coração
- triste e angustiado -
vive na contramão
sofrendo um bocado

co’as dores da paixão
que o deixam lesado
e quase sem Razão
por ser apaixonado...

Meu pobre coração
sente-se rejeitado,
vive sem emoção,
está despedaçado.

Ah!... pobre coração!...
É este o teu fado:
viver a decepção
de não mais ser amado.


TEU NOME
(Joésio Menezes)

Vou riscar teu nome do meu caderno
E no esquecimento vou guardá-lo.
Serei mandado para o inferno
Se isso eu fizer, mas... vou riscá-lo!

Porém, o meu sofrer será eterno
Se, ao menos uma vez, não citá-lo
Em meus versos – ainda que não ternos –,
Por isso, eu não posso ignorá-lo...

Teu nome ainda é o alento
Desse meu peito cujo sofrimento
É não poder aqui mencioná-lo.

E se aqui não me é permitido
Falar o teu nome, está decidido:
De outros amores também não falo!...

O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA

OS DOIS HORIZONTES
(Machado de Assis)

Dois horizontes fecham nossa vida:

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, - sempre escuro, -
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais.
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, - tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas, homem? - Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? - Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

Dois horizontes fecham nossa vida.


ETERNO RETORNO
(Marcos Freitas)

a poesia aflora
sem hora
sem data marcada

a poesia, às vezes
demora
mesmo plantada
a pá, a enxada

a poesia nem sempre
brota
mesmo regada
a muita água ou vinho

a poesia
no entanto
sempre retorna
e me entorna
de alegria

CRÔNICA DA SEMANA


TEMPO QUE FOGE
(Carlos André Tavares Ramos)

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos à limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.
Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: - Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.
Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

UM DEDO DE PROSA


DIA DOS PAIS

Aproxima-se o DIA DOS PAIS. Mais uma data comemorativa criada pelo comércio que sonha com o aumento da venda de artigos e produtos destinados aos pais, sejam eles: velhos ou jovens, pobres ou ricos, altos ou baixos, gordos ou magros, feios ou bonitos... pouco importa sua característica física! O que mais importa é que sejam pais, simplesmente pais, nada mais que isso. A única exigência é que saibam ser pais, que deem aos filhos nada mais do que eles necessitam: carinho, confiança, amizade e, principalmente, amor. Muito amor!
Para alguns, ser pai é uma tarefa árdua. Para outros, é um estado de espírito, é uma responsabilidade Divina, é um sentimento de prazer indescritível e inenarrável, é a culminância do livro intitulado Vida cujos capítulos são a extensão do amor do Pai Eterno... Já para comércio, ser pai é mais uma grande oportunidade que a indústria tem nas mãos para “medir” a intensidade do carinho que os filhos têm para com os seus pais, intensidade esta medida pela qualidade e pelo valor do presente que darão.
Não sabem os empresários que o maior e melhor presente que todo bom PAI gostaria de receber - sem sombra de dúvidas - é a CERTEZA de que seu filho está trilhando – com suas próprias pernas - os caminhos que levam à HONESTIDADE, à HONRADEZ, à REALIZAÇÃO PESSOAL E PROFISSIONAL e , principalmente, à FELICIDADE.


A todos aqueles PAIS DE VERDADE, antecipo aqui os meus votos de muita FELICIDADE pela passagem do seu dia.
MEUS VERSOS LÍRICOS

VELHOS AMORES
(Joésio Menezes)

Despido dos meus cínicos pudores,
Aspiro o perfume da poesia
Que, sob os encantos da sua magia,
Me faz recordar os velhos amores

Responsáveis pelas infindas dores
Que enchem esse peito de agonia,
Causando-lhe uma louca arritmia,
Sufocando meus versos amadores.

São amores antigos e latentes,
Que agem de maneira contundente,
Deixando minh’alma triste e dorida.

Mas é isso que me revitaliza:
Enquanto meu coração agoniza,
Os velhos amores me trazem vida.


RESPOSTA A UM PEDIDO DE SOCORRO
(Joésio Menezes)

- ao poeta Arnaldo Antunes -

Caríssimo poeta, aceita teu destino!...
Se o teu coração “já não bate nem apanha”,
É sinal que a dor do teu peito ladino
É tão somente dor oriunda de manha.

Se nada sentes tu: nem medo, nem calor,
Nem vontade de rir ou de chorar... coitado!
Sinto pena de ti, pois não sentes amor,
Nem dor, nem frio, nem nada, apenas afetado

Foste pelo voraz temor que os poetas
Natos dizem sentir quando a indiscreta
Emoção de viver uma paixão tamanha

Faz deles um zumbi sem nenhum sentimento
Que lhes sirva, porém, esse teu sofrimento
É nada mais que dor aliada à artimanha.
O MELHOR DA POESIA UNIVERSAL


BELEZA
(Almeida Garrett)

Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da natureza:
Queres ser bela? - ama.

Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso?
Não; só formosura.

Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
- Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer –
A mãe é a mais bela
das obras de Deus.
Se ela ama! –
O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama
De luz cristalina:

É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.


O MAIOR BEM
(Florbela Espanca)

Este querer-te bem sem me quereres,
Este sofrer por ti constantemente,
Andar atrás de ti sem tu me veres
Faria piedade a toda a gente.

Mesmo a beijar-me, a tua boca mente...
Quantos sangrentos beijos de mulheres
Pousa na minha a tua boca ardente,
E quanto engano nos seus vãos dizeres!

Mas que me importa a mim que me não queiras,
Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
Este mísero pungir, árduo e profundo,

Do teu frio desamor, dos teus desdéns,
É, na vida, o mais alto dos meus bens?
É tudo quanto eu tenho neste mundo?
CRÔNICA DA SEMANA


COISAS DE PAI
(Edgar Borges, www.roraimaemfoco.com)

É pouco mais de meio-dia de um meio de semana qualquer. Dia frio, com os costumes trocados. Almoço em casa, perto de meu filho. O normal é sair de manhã e voltar à noite, bem noite. Deitado na cama, observo o moleque dormir tranquilo depois de ter virado a noite acordado. Literalmente, é o sono dos puros. Eu? Carrego o cansaço dos adultos.
O curumim há semanas já consegue virar a cabeça de um lado para outro. Acho que vai ser mais esperto que o índio velho, que nasceu de oito meses, foi parar na incubadora para não morrer e ainda hoje é lerdinho.
Admiro a negritude de seu cabelo e percebo, pela primeira vez, que há um redemoinho na cabeça do menino. É parecido com aquelas fotos aéreas de furacão, que mostra como o vento se espalha pelo mar.
Com um dedo e sem tocá-lo – a mãe me esfola se acordar o guri – acompanho e desenho no ar o furacão no cabelo do indiozinho. Faço isso várias vezes, mostro o redemoinho para a índia velha Zanny, rio, é março, choveu a manhã toda e o que tem se me atraso um pouco para chegar no trabalho?
Grande coisa a descoberta do furacão? Não sei. Só tenho certeza que agora sei como é ser um pai bobo, desses que se encanta com quase tudo o que o filho traz de novidade para a nossa vida.

domingo, 31 de julho de 2011

UM DEDO DE PROSA

A PARTIR DOS QUARENTA

Sinto que o meu prazo de validade está perto do fim. Não que eu seja pessimista!... mas os sintomas deixam transparecer isso: há quase um mês uma gripe das “brabas” se apossou de mim e, mesmo à custa dos inúmeros remédios que me foram receitados pelos “doutores” (inclusive os caseiros), ela não pensa em me deixar tão cedo.
Talvez eu esteja sendo exagerado (ou mofino) demais, mas acontece que outras ziquiziras me acompanham já faz um bom tempo: sinusite, rinite alérgica, cólicas renais, cefaleias, almorreima, enfraquecimento das retinas, cegueira noturna e outras enfermidades típicas da idade que avança na velocidade da luz e provoca o enfraquecimento natural do nosso organismo, deixando-nos vulneráveis às moléstias senis.
Ouvi muito dizerem que “a vida começa aos quarenta”, e por isso passei a fazer a contagem regressiva até me tornar um quarentão cheio de vida. Hoje, aos cinquenta, posso afirmar, com propriedade, que essa história de a vida começar aos quarenta não é mito nem lenda!... É verdadeira!. Foi justamente a partir dos quarenta que a minha vida nos hospitais, nos laboratórios de análises clínicas e nas farmácias começou. Desde então, comecei a perceber o quanto o tempo é implacável e não perdoa nada nem ninguém. Nem mesmo as pedras resistem à ação do tempo!...
Porém, um consolo ainda me resta: tenho em mim um órgão - cuja função venérea jamais deixou a desejar – em perfeito estado de conservação. É ele, para mim, o motivo de “grande” orgulho, pois, dentre todos os órgãos que possuo, é o único que “não anda causando MAL a ninguém”...
MEUS VERSOS LÍRICOS

VOA, PENSAMENTO!...
(Joésio Menezes)

Voa, pensamento, voa!..
E traze-me do além
Notícias de um certo alguém
Que há muito me atordoa.

E quando estiveres à toa,
Leva para lá, também,
As chagas que o meu peito tem,
A saudade que em meu peito ecoa.


Voa e busca no horizonte
Destes versos a viva fonte,
Deste poema o sentimento,

Pois, vorazmente a saudade
Judia meu peito, sem piedade,
Por isso suplico: voa, pensamento!..


ENCANTAMENTO
(Joésio Menezes)

Canto...
Mas não a encanto.
Talvez seja esse
O motivo do meu pranto.

Talvez seja esse
O motivo do meu sofrimento,
A razão da minha angústia,
A causa do meu tormento.

Talvez seja esse
O motivo da minha fraqueza,
A razão da minha insônia,
A causa da minha tristeza.

Talvez seja essa
A causa do meu encanto,
A razão do meu viver,
A força do meu canto...
O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA

ISMÁLIA
(Alphonsus Guimaraens)


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...


E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar..


LI UM DIA, NÃO SEI ONDE
(Florbela Espanca)

Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Diga prá mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?...
CRÔNICA DA SEMANA

OS FRADES
(Vanilson Reis)

Hoje, 31 de dezembro, último dia do ano.
Apesar de algumas tristezas ainda no meu peito, que me causam muita dor, estou muito bem, pois Jesus Cristo é um ser perfeito que não abandona o homem. Meus amigos frades não arredaram os pés do lugar em que sempre estiveram: em um rack cor de marfim. Os frades e eu não conversávamos há muito tempo, mas não há nada demais. Não estou escrevendo ultimamente porque a inspiração fugiu de mim como o passarinho que foge da arapuca quando descobre que ela o assusta. Juro que, até mesmo hoje, eu não estava preparado para conversa nenhuma. Ando muito casmurro, feito os personagens de Machado de Assis no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas. Eu sinto uma dor terrível no coração. Para dizer a pura verdade, não sei se é mal de tristeza ou ansiedade por saber o sentido próprio da morte. Penso assim: “por que será que as pessoas morrem tão de repente, da mesma forma que morrem centenas de pássaros”?!
Não quero, aqui, classificar a morte dos pássaros como um ato insignificante. O que pretendo, na realidade, é comparar a queda dos corpos numa planilha de valores reais. A Bíblia diz que todo homem é somente vaidade. Então, o homem existe porque é todo vaidade, e a vaidade desse homem é o princípio do prazer que ele sente pela vida. O pássaro não tem alma, não pensa, mas carrega consigo a certeza de que é livre para voar no universo da Terra. Não seria o caso de classificar o homem e o pássaro numa cadeia elementar de valores?! Porque, com isso, o próprio homem conscientizar-se-ia, definitivamente, de que o amor existe para sempre, entre os homens e os pássaros.
Neste ano, a minha roda de amigos ficou bem menor, principalmente com as mortes de Osmar Pereira de Oliveira - o popular Vovô -, Wilmar Calasans e Naninha. A partida dessas pessoas significou para mim um verdadeiro racha nessa roda que era tão confeitada de respeito e harmonia. A gente não se conforma com a morte, mesmo que seja patrimônio particular do vizinho. É uma coisa incrível com que o homem tem convivido desde o início do mundo. Quantos homens cultos existem nessa vida?! Todos já leram sobre a filosofia da morte!... Mas não aprenderam praticamente nada que pudesse calar o pranto e secar também as lágrimas do ser humano.
A verdade é que tudo não passa de um mistério na Terra. Eu mesmo, amigos frades, sou um homem fraco, totalmente podre, que vai à igreja, mas não aprendeu a maneira certa de rezar. Pena que a minha postura e a postura de vários homens não são o suficiente para convencer o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Jesus Cristo é o símbolo da fé que conduz o verdadeiro cônjuge da religião humana; a igreja não precisa ser linda e o padre ser estrangeiro, o importante é a cerimônia que há entre o Criador e a criatura.
Deus é uno e jamais uma legião de deuses na Terra e no Céu. Não acredito que o Céu seja melhor que a Terra; se eu acreditasse, amigos frades, não estaria aqui, reclamando da grande perda dos amigos que partiram na companhia de Deus. - Eu sou, como Pedro, meio santo e meio homem.

domingo, 17 de julho de 2011

UM DEDO DE PROSA


EU, UM PRODUTO DO MEIO?!

Mais um final de semana chega ao fim. E o que foi que eu fiz de útil nesses dois dias de “descanso”?. Nada!...Simplesmente nada!... Nada além de ficar em casa assistindo aos programas incultos que a televisão aberta nos oferece aos sábados e, principalmente, aos domingos. Programas estes destinados àqueles que se dão por satisfeitos com o simples fato de estarem em casa diante da TV, que nada de enriquecedor -- no que diz respeito à instrução ou à Cultura - lhes proporciona.
Se “o homem é produto do meio” em que vive, sinto pena do que fui nesses dois últimos dias: um ser de mente vazia e sem perspectiva de vida alguma; um ser incapaz de renegar o seu ostracismo mental em prol de algumas horas de inércia intelectual em frente à TV; um zumbi-marionete, manipulado pelas grandes emissoras que nos vendem “enlatados” tão medíocres quanto nós, que nos deixamos envolver por programas que nada acrescentam às nossas vidas...
Felizmente, amanhã terei a oportunidade de me refazer da “lavagem cerebral” a que me submeti durante o final de semana que ora termina. Felizmente, amanhã tudo deverá voltar ao normal e – espero eu – teremos tempo de melhor nos preparar para o próximo final de semana, a fim de que não nos deixemos ser novamente manipulados pela mediocridade televisiva.
MEUS VERSOS LÍRICOS

A MICROSSAIA
(Joésio Menezes)

Outro dia em sala de aula
Vejam o que me aconteceu:
Estava eu estudando
Quando ela apareceu.
Entrou sorrateiramente
E ao meu lado foi sentar-se,
Perguntou-me o que estudava,
Respondi - “É sintaxe”.


Sem desviar a atenção
Continuei estudando,
Quando lá bem ao fundo
Ouvi alguém me chamando.
Virei-me lentamente
Para atender ao chamado
E tive uma doce surpresa,
Ela ainda estava ao meu lado.

Porém, surpresa maior
Eu tive ao perceber
Que ela usava minissaia,
Coisa linda de se ver...
Um colírio aos meus olhos,
Negar isso eu não faço,
Mas uma afronta aos meus nervos
Que são fortes, mas não de aço.

Além das suas lindas pernas
A minissaia também mostrava
As rendinhas transparentes
Da calcinha que ela usava.
Daí por diante, vejam vocês,
Foi-se embora a concentração
E os meus nervos adormecidos
Entraram em erupção.

O grande motivo da erupção
Não foi só a sua calcinha,
Mas também algo interessante
Que dentro dela eu sei que tinha.
Nesta vida acreditava em tudo,
Até na estória da Cinderela,
Só não acreditava que um dia
Pudesse ver a calcinha dela.


SIM, EU ME LEMBRO!...
(Joésio Menezes)

Como eu haveria de esquecer
Meu jeito tímido e o teu calado
Se naquela noite não pude deter
O ímpeto do teu “beijo roubado”?

Como não haveria de enternecer
Aqueles olhares apaixonados
Que trocamos ao anoitecer
Antes de estarmos ali abraçados?

Como não haveria de me lembrar
Do lirismo deixado no ar
Pelas nossas poesias desmedidas?...

Está difícil, também, esquecer
O que depois viria a acontecer:
A nossa traumática despedida!
O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA

LUA ADVERSA
(Cecília Meireles)

Tenho fases como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


CHAMAS UNIDAS
(Madalena Barranco)

Pontos unidos
em chamas
sou
braços, corpo e pavio curto.

Sorriso dançarino
sobre
o palco de uma vela acesa.

Amigo de maga miúda
fiel confidente
purifico-lhe o ambiente.

Uno este fogo incerto
ao coração portador de uma muda,
feita de jaz por mim... Bela estrela.

Chama que és, velada à minha
tremeluzo ao te ver
em flor vermelha,
quando espero pelas velas brancas
que risques o fósforo mais uma vez.
CRÔNICA DA SEMANA

POR QUE NÃO FALAR DO SOL? - A DIVINA COMÉDIA

por Ana Luísa Vasconcellos

Desde aquele dia na pequena igreja do bairro quando aquele cachaceiro de braços finos e duros a ergueu tomando-lhe de súbito as axilas e rindo que ela soube: jamais teria sucesso na vida. E assim foi, a menina cresceu, esqueceu-se daquele episódio mas nenhuma sorte daquelas graúdas, que mudam a direção da sua vida para melhor, que lhe colocam em um novo mundo colorido e agradável tinha lhe acontecido. Ela sabia que esse tipo de sorte não era com ela, só as triviais: ganhar um convite para o cinema, uma bolsa na promoção do supermercado, aquele táxi que passou na hora certa quando estava atrasada, conseguir encontrar um banheiro a tempo quando não podia mais segurar; e também aquelas sortes estáticas que muitos chamam de anjo da guarda e impedem que coisas más ou trágicas lhe aconteçam, como quebrar um membro, sofrer acidentes, violências, abandonos; mas a grande sorte, a sena, o príncipe encantado, o olho de um caçador de talentos, jamais; não era para ela.
O destino nos é revelado nos detalhes, a menina sabia disso. Não queria pensar porque o tema parecia pouco consistente e ela era do tipo que acreditava no poder intrínseco do indivíduo, na força da própria opinião. Apesar de fugir dos livros de auto-ajuda, não tinha dúvidas de que o destino era uma estrada construída pela confiança, suor e o talho preciso de um caráter virtuoso. Tristes ilusões americanas que nunca encontravam espelho em sua realidade, ao contrário, era sempre o bêbado, o canastrão, o sátiro, que estavam por perto para zombar de suas convicções. Aquele riso sem contexto e eufórico que celebrou a menina no espaço santo era só o que o mundo lhe reservara. Salvo algumas penas, pois afinal o gato gosta de brincar muito com o rato antes de liquidá-lo, o destino da menina era o desejo empobrecido de homens carentes e frágeis. Ela tinha medo – ela sempre teve medo – porque não queria lutar, não veio para isso, mas a vida a impelia. Lutar para sofrer menos e não para ser feliz.
Um dia a menina viu Deus, Ele lhe pediu paciência e compaixão; ela pediu descanso; Ele não respondeu. Ela aceitou, mas não sem fazer aquela cara de resignação de quem quer deixar claro que não está feliz. Respirou e continuou. Não entendia porque Deus não sentia culpa pela sua infelicidade, e de outros, afinal ela sabia que não era a única a ter sido batizada por Suas mãos irônicas.
A bronquite na infância não fora por acaso, a pneumonia, precisava ter os pulmões fortalecidos pois iria suspirar muito. Os desejos lhe exauriam, qualquer hora ela sairia atirando, fazendo justiça – paciência demais desgasta. Ele a perdoaria: entende o que são urticárias, entende o cansaço, a escassez de saliva.
Hoje tenta fazer como Ele: ri, ignora, diverte-se sozinha, ama quando vê criança e lamenta.