CRÔNICA DA SEMANA
PENSAR NÃO ENTORPECE A VIDA
Por Aline
Menezes*
A
ausência de reflexão no homem é a atrofia dos lugares-comuns. Sempre explico
para os meus alunos que, num texto dissertativo, por exemplo, precisamos evitar
os clichês, aquelas expressões que, de tão utilizadas, servem para tudo, servem
para argumentar ou tentar argumentar sobre qualquer coisa. Sempre explico para
os meus alunos que, num texto dissertativo, devemos ser objetivos, precisos na
linguagem. Explico que devemos escolher a ordem direta das orações, assim como
devemos nos manter claros, coesos, coerentes. Explico também que, num texto
dissertativo, devemos defender uma ideia ou um ponto de vista... enfim, todas
aquelas lições que os nossos professores de redação nos ensinaram (ou, pelo
menos, deveriam...). Além disso, procuro fazê-los ter curiosidade pelo estudo
da gramática, não da maneira equivocada e entediante que muitos professores de
português já fizeram... porque, para mim, mais importante do que qualquer regra
gramatical é incentivar os alunos ao pensamento autônomo e independente.
Pensar
não é abstração apenas. Pensar pressupõe absorver o que há de mais duro e
difícil na vida, e isso às vezes é algo físico, orgânico, psíquico. Pensar é
também sentir, observar os movimentos, tentar compreendê-los. É importar-se com
o outro e consigo mesmo. É a tentativa de não caminhar anestesiado, embriagado
pelo que há de mais torpe, vil e desumano que existe por aqui. É a coragem de
enfrentar a paralisia, a preguiça, o comodismo. Pensar é querer ver. Enxergar a
vida, o homem, o país, o mundo... Pensar é reconhecer as nossas ambiguidades,
não apenas as linguísticas, e as nossas contradições e incoerências. Pensar é
manter-se lúcido, mesmo quando tudo parece nos enlouquecer a cada instante;
mesmo quando necessitamos de ilusões para sobrevivermos; mesmo quando
descobrirmos que a vida é também angústia e desespero. E que a felicidade
jamais deveria ser um imperativo.
Pensar
é doer-se sozinho, solitariamente. É, às vezes, não ter
ninguém para pensar junto, para sofrer acompanhado. Pensar é gostar da solidão
e nem por isso parecermos masoquistas. Felizmente, pensar é também compartilhar
com alguém aqueles insights fora de hora, fora de tempo. É
tornar-se inadequado numa sociedade de reproduções fajutas e imbecis, de
pensamentos estúpidos e sem nenhum tipo de consistência. Por isso mesmo, pensar
exige que nos sintamos estranhos, inadaptáveis, anormais...
Pensar
é acreditar na possibilidade de ressignificar as palavras, os verbos, as
expressões, as ideias. É arriscar-se a parecer tolo (apaixonar-se também é tudo
isso). É correr o risco de se revelar incauto, imprudente... Mas, ainda assim,
pensar é melhor que ser entorpecido. É escrever um texto como este e ter a
certeza de que me falta pensar um pouco mais e refletir sobre o que estou
escrevendo, mas pensar é gerúndio, não infinitivo, portanto, qualquer falha é
parte do processo, é necessário. Pensar é tentar se conhecer, é buscar
nutrientes para uma alma ferida, cansada, subnutrida, despedaçada. Porque
pensar é uma necessidade contra a brutalidade do não pensar, da não reflexão,
da ausência de clareza, da falta de solidez do mundo.
Pensar
é dar sentido à vida, antes que nos tornemos sem sentido algum. É experimentar
as impossibilidades, as transgressões. É lutar contra a maioria, apesar de
tudo. É insistir sempre contra a estupidez. É, ainda, entender a
relevância e a necessidade da própria linguagem como instrumento de liberdade,
ainda que esta seja tão controversa, tão incomum...
*Aline
Menezes é jornalista e professora de Leitura e Produção de Texto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário