quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

UM DEDO DE PROSA

NOSTALGIA: O ESTANDARTE DA VIDA

Não faz muito tempo, festejávamos a chegada de 2010, esperando dele dias melhores que os do ano que estava findando. E novamente cá estamos nós às vésperas de mais um reveillon e, consequentemente, de dias melhores.
Imperceptivelmente, o tempo passa numa velocidade tal que até parece que, ao ser criado, o deus Cronos deu-lhe asas. E sentindo-se alado, os ponteiros do seu velocímetro giram numa velocidade incontrolável, buscando acertar o destino dos que dele dependem e a ele resistem. Porém, o giro dos seus ponteiros jamais retrocede tampouco pára na órbita cronológica dos acontecimentos. Daí o motivo de sermos e vivermos tão nostálgicos.
A nostalgia nos reporta aos fatos que mais nos trouxeram júbilo no decorrer das nossas vidas que, ano após ano, mais ligada está a ela, que é fonte vital de grande parte dos nossos sonhos, os quais alimentam nossa vontade de viver na incessante busca do que nos possa proporcionar instantes de felicidade e deleite.
Enfim, não há como nos referirmos à nostalgia sem mencionar o Tempo cronológico e os seus efêmeros milésimos de segundo que, dependendo da situação, ficarão eternizados na memória daqueles que fazem dela o jubiloso ESTANDARTE DA VIDA.
MEUS VERSOS LÍRICOS

O FRUTO PROIBIDO
(Joésio Menezes)

Aquele fruto proibido
Que ofereceram a Adão
Também me foi oferecido
E eu não pude dizer NÃO.

E após tê-lo comido
Com a fome de um glutão,
Senti o fogo da libido
Queimar-me feito um vulcão.

Foi aí que a serpente
Apareceu e, de repente,
Minha Eva não resistiu,

E mostrando um estranho
Apetite sem tamanho
A serpente ela engoliu.


PARODIANDO PESSOA
(Joésio Menezes)

O poeta não é fingidor.
Ele é, simplesmente,
Alguém que canta sua dor
Do jeito que ele sente.

Mas se lê o que escreve
Sobre o que o faz refém,
Uma dor branda e breve
Ao seu peito logo vem.

E as dores da sua vida,
Inda que tenham razão,
Jamais serão fingidas
Ao seu nobre coração.
O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA

ELA
(Machado de Assis)

Seus olhos que brilham tanto,
Que prendem tão doce encanto,
Que prendem um casto amor
Onde com rara beleza,
Se esmerou a natureza
Com meiguice e com primor

Suas faces purpurinas
De rubras cores divinas
De mago brilho e condão;
Meigas faces que harmonia
Inspira em doce poesia
Ao meu terno coração!

Sua boca meiga e breve,
Onde um sorriso de leve
Com doçura se desliza,
Ornando purpúrea cor,
Celestes lábios de amor
Que com neve se harmoniza.

Com sua boca mimosa
Solta voz harmoniosa
Que inspira ardente paixão,
Dos lábios de Querubim
Eu quisera ouvir um -sim-
P’ra alívio do coração!

Vem, ó anjo de candura,
Fazer a dita, a ventura
De minh’alma, sem vigor;
Donzela, vem dar-lhe alento,
“Dá-lhe um suspiro de amor!”


DOIS ANJOS
(Gabriela Mistral)

Não é um anjo apenas
que me afeiçoa e guia.
Como embalam as duas
orlas ao mar, embalam-me
o anjo que traz o gozo
e o que traz a agonia;
o que tem asas voantes
e o que tem asas fixas.
Eu sei, quando amanhece,
qual vai reger-me o dia,
se o anjo cor de chama,
se o anjo cor de cinza.
E dou-me a eles como
alga às ondas, contrita.
Voaram uma só vez
com asas unidas:
foi o dia do amor,
o da epifania.
Fundiram-se numa asa
as asas inimigas
e apertaram o nó
que junta à morte a vida
CRÔNICA DA SEMANA

42
(Mônica)

A semana foi agitada até agora. Na segunda-feira, enquanto eu preparava as aulas do dia seguinte e tentava colocar ordem na bagunça de arquivos do meu computador, muita gente dentro e fora da internet especulava: qual seria o grande segredo de Gerson? A minha pergunta, santa ignorância, era bem mais básica: mas quem diabos é Gerson? Claro, isso é que dá não seguir novela das 9, nem mesmo pelo resumo da semana no jornal. Também, pôxa, se tivessem me dito ‘ah, é o Marcelo Antony!’, já seria uma grande ajuda. Mas, pelo visto, o pessoal ficou meio decepcionado porque, né, o tal segredo era nada mais que uma tarazinha dessas corriqueiras. Dava pra desconfiar, gente, porque se fosse realmente importante, a notícia teria vazado pelo Wikileaks. Hoje em dia você só acontece de verdade se a fofoca vier pelo Wikileaks. Entendeu, EGO?
Mas eis que estamos na quinta-feira e o que tá bombando já é outra história. A NASA manda avisar que hoje tem entrevista coletiva às 17h (horário de Brasília) lá no site. O assunto? Parece que vão revelar alguma coisa que pode ter a ver com as pesquisas sobre vida extraterrestre. Uns lances de astrobiologia, pelo que disseram. Espero que seja mesmo alguma coisa muito bacana, porque dois mega-desapontamentos em 72 horas é um pouco demais. Algo mais do que o recado de ’Busquem Conhecimento’ enviado pelo ET bilu, por favor. Por via das dúvidas, já estou treinando aquela musiquinha do Contatos Imediatos, caso tenha que me comunicar com os seres. Ou então vai ver a NASA quer confirmar a minha teoria de que aquela torre que tem aqui nas montanhas é a Nave-Mãe – pelo menos de noite, iluminada, é tal e qual.
Afirmar que existe vida inteligente em outros planetas seria um balde de água fria. Isso todo mundo já sabe, oras- difícil tá sendo acreditar em vida inteligente neste aqui. Mas em meio a tantas especulações, boataria e disse-me-disse, lá bem quieto no seu canto , um computador está agora sorrindo discretamente: o que a NASA deve anunciar com pompa e circunstância, em entrevista coletiva e artigo na Science, ele já sabe: a resposta final para a Vida, o Universo e Tudo o Mais, é mesmo 42.
Update: então é isso. Uma bactéria que usa arsênico em vez de fósforo, expandindo as fronteiras do conceito de vida neste planeta. Meu fogão também funciona sem fósforo, será então que ele é uma forma de vida alienígena ainda desconhecida? Sei não, depois que o Mário Prata lançou a teoria dos guarda-chuvas, tudo é possível.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UM DEDO DE PROSA

ENFIM, DEZEMBRO!!!

Alguns dias atrás eu perguntei: E QUANDO DEZEMBRO CHEGAR?
Pois é!... dezembro chegou e ainda não encontrei respostas que amenizem as angústias que sufocam meu peito, que nada têm a ver com o DIA MUNDIAL DE COMBATE À AIDS, comemorado hoje.
Naquela ocasião, eu disse que “não mais via o Natal e o Réveillon como outrora, época em que as pessoas abriam seus corações e entregavam-se de corpo e alma às fartas festas”. Mencionei ainda que, hoje, “as pessoas estão pouco se importando com quantas famílias desejam um simples prato com arroz e feijão na noite de Natal, ou com quantas crianças frustram-se pelo fato de o Papel Noel nunca visitar as suas casas”; que “muitos são os que jogam fora as sobras da ceia, e muitos mais são aqueles que as catam no lixo para levarem aos seus filhos, que nada têm para comer”.
Tentando levantar meu astral, Fátima Maria, uma grande amiga (que hoje aniversaria) e leitora assídua dos meus insossos escritos, disse-me que “é só a gente ser diferente, fazer diferente e tudo ganha sentido na vida da gente”. Pois bem, Fatinha!... tentei ser e fazer diferente, mas as minhas angústias “pré-dezembrinas” só aumentaram, principalmente depois de assistir às últimas imagens vindas da “Cidade Maravilhosa”, terra da qual os fora-da-lei se acham donos.
Talvez até seja possível SER e FAZER diferente para que tudo ganhe sentido na vida da gente, mas é IMPOSSÍVEL ficar indiferente às desigualdades sociais, à intolerância religiosa e racial, ao que mancha a imagem do nosso país lá fora e, principalmente, a tudo que possa desestruturar os nossos lares, as nossas famílias, os nossos corações...
MEUS VERSOS LÍRICOS

ANJO CORRUPTOR
(Joésio Menezes)

Naquela tarde estava eu
Sozinho, ali concentrado,
Quando do nada apareceu
Um anjo lindo, perfumado.

Ele aproximou-se e me deu
Um abraço bem apertado,
E o cheiro do perfume seu
Ficou no meu ser impregnado.


Esse anjo imaculado
Riu-me e ali ficou parado,
Instigando-me o desejo...

Ainda que seja possível,
Não esquecerei o incrível
Anjo corruptor do meu pejo.


SOB TUAS PRESAS
(Joésio Menezes)

Com tuas garras
Me agarras,
Me trucidas...
Judias de mim,
Mas mesmo assim
Me enches de vida.

Me fazes sentir
No corpo eclodir
O calor venéreo
Do êxtase iminente
Que torna veemente
Meu fogo etéreo...

São tuas presas
Que mantêm acesa
A minha libido
E fazem meu tesão
Tornar-se um vulcão
Ativo e desinibido.
O MELHOR DA POESIA BRASILIERA

POEMINHA AMOROSO
(Cora Coralina)

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso
que te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo..."


QUARENTA ANOS
(Mário de Andrade)

A vida é pra mim, está se vendo,
uma felicidade sem repouso;
eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
disso, persisto em me enganar... Eu ouso
dizer que a vida foi o bem precioso
que eu adorei. Foi meu pecado... Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,
que me sinto completo e além da sorte,
me agarrar a esta vida fementida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!... que eu quero amar a morte
com o mesmo engano com que amei a vida.
CRÔNICA DA SEMANA

BUSCA
(Débora Bottcher)

A moça queria prometer que amanhã vai acordar mais feliz e ter um dia mais leve. Que vai sorrir mais e tornar as horas menos densas.
A moça deseja amanhecer sem sentir-se sufocada - como se o sol lhe ardesse a pele tirando-lhe o ar fazendo-a sentir-se como quem vai desaparecer pra sempre, nunca mais respirar...
A moça gostaria de selar um compromisso com a paz, mas a vida anda lhe doendo um pouco e tem sido difícil sobreviver.
Quando, de repente, ela se pega admirando a Lua, quase não consegue entender o silêncio de luz que a embala debaixo do manto azul do céu e uma certa quietude interior a abraça; mas ao baixar os olhos ao redor, esse deslumbre se desvanece e uma curiosa escuridão novamente se instala.
A moça sente saudades do que não consegue se lembrar...
Alguém vai dizer a ela que a vida é assim: de altos e baixos, alegrias e dores, amor e indiferença, incompreensões e sentimentos desconexos.
A certa altura, a moça sabe que todos finalmente se rendem a essa ideia e ela acredita que verdadeiramente se seja capaz de compreender os ciclos de ventura e desilusão.
Mas ainda é cedo para ela: a moça ainda não aceita essa rotina escancarada de mesmice, essa angústia, essa indescritível irritação, um curioso medo. E procura, incansável, pelas frestas, pelas bordas, pelas fendas do tempo aquele raio de esperança que ela acredita existir...

Fonte: Crônica do Dia

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

UM DEDO DE PROSA

A POUCOS DIAS DO FIM...

Aproxima-se o final do ano letivo. Os professores - hoje com menos cabelos que ontem devido ao estresse diário (e aos diários) – fazem das tripas coração para chegarem vivos às provas finais enquanto os alunos usam suas calculadoras e fazem as contas de quantos pontos necessitam para serem aprovados e, consequentemente, saírem de férias sem problemas com o boletim.
As mães (pobres mães!) acendem velas para São Judas Tadeu (o santo das causas impossíveis) e fazem-lhe promessas para que seus filhos não sejam reprovados, caso contrário elas terão que antecipar o pedido de perdão (e de um pouco mais de paciência) a Deus, pois seus filhos serão alvos de pancadas; e elas, alvos das críticas dos maridos que nunca comparecem às escolas em busca de informações acerca do rendimento escolar dos herdeiros dos seus problemas.
E alheios a esses (e a outros mais) “insignificantes” problemas de rotina nas escolas, os governantes estouram seus champanhes comemorando a antecipação da “gorda” Gratificação Natalina - que sempre vem acompanhada dos 13º, 14º e 15º salários - enquanto fazem contagem regressiva para a chegada do recesso de final de ano, o qual, em muitos casos, se estenderá até após o carnaval.
MEUS VERSOS LÍRICOS

LASCÍVIA
(Joésio Menezes)

Se para mim te insinuas
Olhando-me de través,
Desejo-te sempre nua,
Mesmo sabendo quem és:

A diva que me alua
E me põe sob os seus pés,
Por isso, lasciva Lua,
Não me olhes de viés!


Esse teu oblíquo olhar
Me leva a te desejar,
Acende meu estopim...

E se assim continuares
Lançando-me teus olhares,
Não responderei por mim!


VIDA
(Joésio Menezes)

Afinal, para quê serve a vida
Se não posso eu vivê-la sem ti?
Talvez ela sirva de sobrevida
Ao romance que contigo vivi.

Pode ser ela, também, a guarida
Das dores que outrora eu senti
Quando da minha paixão proibida
Por aquela que jamais esqueci

E até hoje habita meu peito,
Fazendo de mim um pobre sujeito,
Incapaz de viver longe de ti...

Afinal, para quê chorar a vida
Se, logo após a tua despedida,
Me senti melhor depois que morri?...
O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA

PARA A VERTIGEM!
(Raul de Leoni)

Alma em teu delirante desalinho,
Crês que te moves espontaneamente,
Quando és na Vida um simples rodamoinho,
Formado dos encontros da torrente!

Moves-te porque ficas no caminho
Por onde as cousas passam, diariamente:
Não é o Moinho que anda, é a água corrente
Que faz, passando, circular o Moinho...

Por isso, deves sempre conservar-te
Nas confluências do Mundo errante e vário.
Entre forças que vem de toda parte.

Do contrário, serás, no isolamento,
A espiral, cujo giro imaginário
É apenas a Ilusão do Movimento!...


SONETO DA SEPARAÇÃO
(Vinícius de Moraes)

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
CRÔNICA DA SEMANA

DESPEDIDA DE ONTEM
(Pâmela S. de Melo)

Talvez eu saiba o propósito dessa chuva fria e insistente. Ela veio lavar meu caminho, selar um capítulo de minha história e inaugurar outro. E isso provoca em mim um bocado de angústia.
Finalizar um período, saber que daqui pra frente ele só vai existir no canto melancólico de minhas lembranças machuca um pouco, deixa meu coração pequenininho e apertado, ele caberia na ponta de uma estrela de tão encolhido e frágil que está. Eu sei que ele está se preparando para novas emoções e aventuras, e essas promessas de esperança é que fazem a semente germinar e dar frutos, mas, hoje, só hoje, as lágrimas insistem em cair só pra se despedir de ontem. Vou deixá-las chover em mim.
Amanhã, eu guardo essas lembranças tão recentes no meu baú de preciosidades, transformo essa angústia em coragem, e vou voar, alto, livre... vou semear meu campo de flores, porque a minha primavera é certa, e está pra chegar!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

UM DEDO DE PROSA

DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Sábado, dia 20/11, comemorar-se-á o DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA. Essa data foi estabelecida pelo projeto de lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, pois foi neste dia (no ano de 1695) que morreu Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares.
A homenagem a Zumbi foi mais do que justa, pois este personagem histórico representou a luta do negro contra a escravidão, no período Colonial. Ele morreu em combate, defendendo seu povo e sua comunidade. Os quilombos representavam uma resistência ao sistema escravista e também uma forma coletiva de manutenção da cultura africana aqui no Brasil. Zumbi lutou até a morte por esta cultura e pela liberdade do seu povo.
Historicamente falando, a criação dessa data foi importante, pois serve como um momento de conscientização e reflexão sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da cultura nacional. Os negros africanos colaboraram (e muito!) nos aspectos políticos, sociais, gastronômicos e religiosos de nosso país, por isso, o DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA deveria ser comemorado nas escolas, nos espaços culturais e em outros locais, como forma de valorização da cultura afro-brasileira.
Vale ressaltar ainda que no Brasil sempre ocorreu uma valorização extremada e errônea dos personagens históricos de cor branca, como se a nossa história tivesse sido construída somente pelos europeus e seus descendentes. Imperadores, navegadores, bandeirantes, líderes militares entre outros foram sempre considerados heróis nacionais.
Felizmente, temos hoje a valorização de um líder negro em nossa história. Esperamos que em breve outros personagens históricos de origem africana sejam valorizados por nosso povo e por nossa história.
Amém!...

Fonte: www.suapesquisa.com/datascomemorativas
MEUS VERSOS LÍRICOS

PRECONCEITO
(Joésio Menezes)

Que culpa tenho eu
Se tua pele é branca,
Se minh’alma é franca,
Se o preconceito é teu?

Orgulho tenho eu
Da minha negritude,
Pois essa é uma virtude
Que Deus-Pai me deu.


Que culpa eu posso ter
Se nada fiz pra merecer
De Deus tanto amor?...

Rasga do teu peito
O infame preconceito
Contra minha negra cor!


APARTHEID
(Joésio Menezes)

Sou filho do apartheid,
O sofrer é meu irmão...
Soweto, sou gueto, sou preto
Vítima da segregação.
Dizem que sou inferior
E por causa da minha cor
Não me estendem a mão.

Não tenho meus direitos
Políticos ou sociais.
E até a própria liberdade
Eu não a tenho mais,
Pois fora de Soweto
Sou gueto, sou preto
Nas páginas policiais.

A violência do apartheid
Noticiada nos jornais
Mobilizou a humanidade
E por isso não sofro mais,
Mas ainda sou do gueto
E me orgulho de ser preto,
Como os meus ancestrais.

Meus filhos hoje sofrem,
Por serem filhos de um “negão”
E netos do apartheid
Que só lhes trouxe humilhação.
Sou preto... sou do gueto,
Mas a eles eu prometo
O fim da segregação.
O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA

PRETO NO NEGRO
(Jorge Amâncio)


grana preta peste negra
minha preta pérola negra
faixa preta cambio negro

negropreto
musica negra
poesia negra
artista negro


um preto
pretinho básico
pretaporter

pretonegro
negro gato
gato preto
caixa preta
buraco negro


DILACERAÇÕES
(Cruz e Sousa)

Ó carnes que eu amei sangrentamente,
ó volúpias letais e dolorosas,
essências de heliotropos e de rosas
de essência morna, tropical, dolente...

Carnes, virgens e tépidas do Oriente
do Sonho e das Estrelas fabulosas,
carnes acerbas e maravilhosas,
tentadoras do sol intensamente...

Passai, dilaceradas pelos zelos,
através dos profundos pesadelos
que me apunhalam de mortais horrores...

Passai, passai, desfeitas em tormentos,
em lágrimas, em prantos, em lamentos
em ais, em luto, em convulsões, em dores...
CRÔNICA DA SEMANA

RACISMO
(Luis Fernando Veríssimo)

Preconceito racial e discriminação racial são duas coisas diferentes.
O preconceito é um sentimento, fruto de condicionamento cultural ou de uma deformação mental, mas sempre incorrigível. Não se legisla sobre sentimentos, não se muda um habito de pensamento ou uma convicção herdada por decreto. Já a descriminação racial é o preconceito determinando atitudes, políticas, oportunidades e direitos, o convívio social e o econômico. Não se pode coagir ninguém a gostar de quem não gosta, mas qualquer sociedade democrática, para desmentir o nome, deve combater a descriminação por todos os meios – inclusive a coação.
Não concordo com quem diz que uma política de cotas para negros no estudo superior é discriminação. É coação, certo, mais para tentar corrigir um dos desequilíbrios que persistem na sociedade brasileira, o que reflete na educação a desigualdade de oportunidades de brancos e negros em todos os setores, mal disfarçada pela velha conversa da harmonia racial tão nossa. As cotas seriam irrealistas? Melhor igualdade artificial do que igualdade nenhuma.
Agora mesmo caíram em cima de quem disse – numa frase obviamente arrancada do contexto – que racismo de negro contra branco é justificável. Nenhum racismo é justificável, mas o ressentimento dos negros é. Construiu-se durante todos os anos em que a última nação do mundo a acabar com a escravatura continuou na prática o que o tinha abolido no papel. Não se esperava que o preconceito acabasse com o decreto da abolição, mas mais de 100 anos deveriam ter sido mais do que suficientes para que a discriminação diminuísse. Não diminuiu.
Igualar racismo de negro com racismo de branco não resiste a um teste elementar. O negro pode dizer – distinguindo com nitidez preconceito de descriminação – “Não precisa me amar, só me dê meus direitos”. Qual a frase mais próxima disto que um branco poderia dizer, sem provocar risos? “Não precisa me amar, só tenha paciência”? “Me ame, apesar de tudo”?. Pouco convincente.
É uma questão que vai e vem, como as marés. A velha oposição, na seleção brasileira, do time do povo e o time do técnico. Quando as coisas vão bem (Brasil 4, Chile 0) não há discussão, quando as coisas vão mal (Brasil ali ali, Gana 0) volta a questão. O povo quer os melhores sempre no time. Isto se repete há anos. Mudam os técnicos, mudam os melhores, muda, em boa parte o povo, e a questão continua indo e vindo. Como as marés

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

UM DEDO DE PROSA

E QUANDO DEZEMBRO CHEGAR?

Essa é a época do ano que mais angústia me traz, pois o Natal e o Réveillon se aproximam e hoje não mais vejo motivos para tanta comemoração.
Costumam dizer que essa é a época de confraternizarmo-nos, mas a cada ano que se passa as pessoas estão perdendo esse espírito de confraternização e, consequentemente, o interesse por esse tipo de festa. Talvez pelo estresse acumulado ao longo do ano, ou até mesmo pelo fato de estarem “ocupados” demais para disponibilizarem um pouco do seu “precioso tempo” àqueles que sempre fizeram parte dos momentos mais importantes da sua vida, os familiares.
Também não mais vejo o Natal e o Réveillon como outrora, época em que as pessoas abriam seus corações e entregavam-se de corpo e alma às fartas festas. Egoisticamente, as pessoas (não todas, é claro!) estão pouco se importando quantas famílias desejam um simples prato com arroz e feijão na noite de Natal, ou quantas crianças frustram-se pelo fato de o Papel Noel nunca visitar as suas casas, levando-lhes nem que seja um carrinho de plástico, daqueles comprados nas lojas de R$ 1,99. Muitos são os que jogam fora as sobras da ceia, e muitos mais são aqueles que as catam no lixo para levarem aos seus filhos, que nada têm para comer.
É justamente esse o motivo da minha angústia e da minha falta de interesse em comemorar as festas de final de ano. É justamente por isso que há alguns anos sinto meu peito apertado sempre que se aproxima o mês de dezembro.
MEUS VERSOS LÍRICOS

OLHAR ESMERALDINO
(Joésio Menezes)

Aquele olhar esmeraldino
Penetrou o âmago do meu tino
E me deixou com insônia;
E eu jamais esquecerei
Aqueles olhos que flertei,
Olhos verdes de Rondônia.

Observador e idealista,
Apaixonei-me à primeira vista
Pelos olhos daquela menina
Que de muito longe veio
Para deixar-me maluco e meio
E com sua imagem na minha retina.

Ah, aquele olhar esmeraldino!...
Fez de mim um menino
Sem sono e de alma insana
Que sonha rever, algum dia,
Os encantos e a magia
Dos verdes olhos de Joana.


DESATINO
(Joésio Menezes)

Meus pensamentos foram em busca de ti...
Pela janela da vida saíram sem tino.
De carona no vento eu os segui
e juntos viajamos sem destino.
Ambos vagamos pelo orbe celeste,
E de Norte a Sul, de Leste a Oeste -
o que encontramos foi o desatino
O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA

ÁRIA AO VIOLÃO
(Alphonsus de Guimaraens Filho)

Que sonâmbula campânula
embala o íncola na insula
campanulando?

Cantagalo cantagálico
no áulico tez gaulesa
cantagalando.

Só, na sombra solitária
estrelinha latejante
é chama, é flor, e madruga
num rio que ri ou geme,
campanulando.

Sobre a memória madura
a cálida, a alva aurora
desce doce se incorpando,
campanulando.


EU
(Álvaro Viana)

Eu tenho amor pelo meu tipo feio,
Esguio e magro, muito magro e alto.
Às vezes fico embevecido e creio
Que o meu semblante é de terroso asfalto.

E noite adentro sonho um lago e em meio
Às águas calmas que em meu sonho exalto,
Vejo entre os astros, a mim próprio alheio,
O meu perfil tristonho de pernalto.

Entre os dois céus iguais em que me perco,
De um grande amor pelo meu Ser me cerco
Abrindo as asas deste Ideal que é meu.

E assim perdido na quimera, absorto,
Espera pela paz, depois de morto,
Quem nunca soube para quê nasceu.
CRÔNICA DA SEMANA

PAIXÃO
(Delasnieve Daspet)

Nunca consegui dimensionar o sofrimento do homem Jesus Cristo. Pessoas de minha geração leram e leem a bíblia. Muitos praticam os ensinamentos. Acho que me faltava a fé. A fé no imponderável. A fé no Onisciente. A fé que do amor faz bastar as dúvidas e tornar a paixão incomensurável. Como é que eu, pés de barro, poderia entender esse amor, essa entrega, esse sacrifício, essa doação...?
Num louco momento, ouso (todo poeta ousa sonhar e imaginar coisas impossíveis e vãs) comparar nossas vidas com a vida de Jesus. Ouso confrontar nossos sofrimentos com os Seus. A nossa morte diária com a Sua. Coloco-me frente a vida, olho-me no espelho de minha consciência, avalio minhas cicatrizes, as cicatrizes que a vida nos deixa...
Por que Ele morreu por mim? Eu seria capaz de morrer por alguém? Como entender esse amor? Como aceitar essa doação? Tantas coisas questionamos nas coisas que vemos no dia a dia...
Lá na rua jaz, em poças de sangue, uma criança de seus quinze anos... Seu corpo franzino, humilde, tatuado, encontra-se abandonado ao léu, carente de uma atenção que não lhe foi dada!
A violência está em todos os nossos momentos e atos, sintomático resultado da desagregação social, do desajuste familiar, da exclusão, pela falta de ocupação...
É Jesus que tem sua paixão diária em todos os lugares do mundo? É Jesus quem morre todo momento na situação endêmica em que vivemos? É Jesus quem morre com o fracasso do ser humano... Com o fracasso do amor?! Ou somos nós a morrermos na solidão do dia a dia e na falta da compaixão por nós? Ou nem sabemos amar?
Só pode entender o amor da Paixão quem saiba amar, quem olhar o semelhante como a si mesmo. Há tanto a aprender! Há tanto a perdoar! Há tanto a amar e a viver o sonho da vida!...