quinta-feira, 15 de novembro de 2012



MEUS VERSOS LÍRICOS

NÚMERO NATURAL
(Joésio Menezes)

Em uma dúzia contém doze unidades,
Um pé corresponde a doze polegadas.
São doze os apóstolos da Cristandade;
Duma grosa, doze é a raiz quadrada.

Somaram doze os trabalhos herculanos
Em doze anos a serviço dos mortais.
Contabilizamos doze meses no ano,
Também são doze os signos zodiacais...

O doze é um número tão natural
Que doze horas completam o meio dia.
E pensando no doze, como cardinal,
Com doze versos eu fiz esta poesia.


TROCADILHOS
(Joésio Menezes)

O oco produz o eco,
O eco ressoa no oco,
O troco não paga o treco,
O treco não tem mais troco.

Se fito aquela fita,
Se a fita eu sei que fito,
Meu fito te deixa aflita,
A fita nos causa conflito.

O fraco não abre o frasco,
O frasco guarda refresco,
Ar fresco não causa asco,
O asco requer ar fresco.

O centro do coco é oco,
A água do coco eu seco
E deixo o oco do coco
Um oco sem água, sem eco...


O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA

REPOUSO
(Mario Quintana)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...


POÉTICA POLÍTICA
(Bruno Weber Bopp)

Poética política...
Pô!... Ética política?
Crítica!

Tu, esquerda ou direita?
Ex-querda, agora direita.
Troca feita.

Nesta troca de partidos,
como fica teu coração?
-Partido que não.

Ano de eleição:
sorriso para foto,
parece prostituição;
tudo por um voto.
CRÔNICA DA SEMANA



O ANALFABETO POLÍTICO
(Bertolt Brecht)

 O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo da vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


UM DEDO DE PROSA

ELA VOLTOU!...

Ela voltou!... Finalmente, ela voltou!...
Ainda que por pouco tempo, ela voltou e nos proporcionou uma manhã de quinta-feira regada a bom-humor por parte de todos que, ansiosamente, esperavam a sua chegada. Já não mais estávamos suportando os efeitos colaterais causados pela sua ausência, pela sua demora em nos “dar as caras”.
Ela voltou permitindo que os pardais festejassem com os seus a chegada de um novo dia, de novos ares, de novos frutos; ela voltou para apagar os rastros de cinza deixados cerrado adentro pelos corações desumanizados e pelas mentes sem brilho e sem noção de vida.
Ela voltou para prenunciar o fim do estio e o início da florada; para amenizar o mal estar por que todos estávamos passando; para aliviar a sofreguidão do solo, para fortalecer a esperança do lavrador, para alimentar o curso dos riachos; para matar a sede de inspiração dos compositores e dos poetas, que há muito  ansiavam pelo cheiro de terra molhada...
Seja bem-vinda, bendita chuva!

MEUS VERSOS LÍRICOS

AS CANÇÕES DE CAETANO
(Joésio Menezes)

“Desde que samba é samba”,
“Descobri que sou um anjo”
E que tenho o “dom de iludir”
“A filha da Chiquita Bacana”
Com meu “amor mais que discreto”.

Mas “eu não peço desculpa”
Se deixo a “morena dos olhos d’água”
“morrer-se assim” com “dor-de-cotovelo”
Por causa da “dama das Camélias”,
Com quem sou “muito romântico”.

E já que “nosso estranho amor”
É um “eclipse oculto”,
Faço uma “oração ao tempo”
Para que, “sete mil vezes”,
Ela possa me dizer: “eu te amo”.

“Acontece” que é “coisa do destino”
A “incompatibilidade de gênios”
Que há entre “ela e eu”:
Ela curte “blues” e “Peter Gast”;
E eu, as canções de Caetano.

RUSGAS E CONTURBAÇÕES
(Joésio Menezes)

Não me olhes com esse olhar desbotado
Nem me chames com essa voz engasgada,
Pois não sou eu o único culpado
Pelo fim da nossa história conturbada.

Não me venhas com esse papo furado
De que uma história só pode ser encerrada
Quando o alguém que temos ao nosso lado
Se revela uma pessoa perturbada.

Não me sorrias com esse falso riso
Nem me venhas falar do prejuízo
Que o fim desse enlace possa nos causar,

Pois não sou eu assim tão imaturo
Ao ponto de sentir-me inseguro
Caso nosso amor tenha que acabar.

O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA

ALTA NOITE
(Cassiano Nunes)

Alta noite, leio Marianne Moore.
Passos no lajedo.
Olho através da grade.
De fora,
os dois gorjeiam cumprimentos
com a cordialidade aflita
do vício carecido.
Tão acessíveis suas carnes claras,
tão disponível
o frescor da juventude!
Partem desajeitados
com a recusa amável.
De novo, a solidão.
Há luz demais!
Procuro agora
versos pássaros.
Busco, também carente,
remota, salvadora canção. 

O VERBO NO INFINITO

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar 
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...

CRÔNICA DA SEMANA

AFINIDADE
(Arthur da Távola)

Afinidade é um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e ao depois. A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. E o mais independente também.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades... Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que foi interrompido.
Ter afinidade é muito raro. Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas.
Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavras, é receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.
Não é sentir nem sentir contra... 
Nem sentir para... 
Nem sentir por... 
Nem sentir pelo... 
Afinidade é sentir com.
Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber... É mais calar do que falar, ou, quando falar, jamais explicar: apenas afirmar.
Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças. É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas quanto das impossibilidades vividas. Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo de separação. Porque tempo e separação nunca existiram, foram apenas oportunidades dadas pela vida.