quarta-feira, 7 de agosto de 2013

UM DEDO DE PROSA



Procura-se uma lembrança perdida no tempo. Lembrança esta capaz de fazer-me criança novamente; capaz de transportar-me - nos braços das pueris recordações - à saudade da minha longínqua infância e ao que de mais puro deixei por lá.
Procura-se uma infância esquecida pelo tempo. Infância esta responsável por todas as boas lembranças registradas em minha mente e arquivadas no meu coração cuja bateria está prestes a descarregar em definitivo, porém, resistindo firmemente às dores da saudade e à cruel imparcialidade do deus Cronos.
Procura-se a pureza de um coração infantil. Pureza esta corrompida pelo tempo e desprezada pela imaturidade dos que se dizem maduros e prontos para corresponderem aos impulsos do cérebro cujo chip foi danificado quando da sua suposta maturação, quando do seu envelhecimento.
Procura-se, enfim, um dispositivo que permita retroceder o tempo e rebobinar o filme em que ficaram gravadas todas as boas lembranças de outrora cujas recordações provocam o rejuvenescimento dos corações que inda se alimentam com o saudosismo e sorriem para o envelhecimento, que os aguarda pacientemente.
MEUS VERSOS LÍRICOS



VONTADE DE VOCÊ
(Joésio Menezes)

Ai, que vontade de você
Nos textos que componho,
Nos meus braços,
Nos meus sonhos,
Nos versos que ao vento
Meu coração declama...

Ai, que vontade de você
Na alegria do meu riso,
No meu desvario infinito,
Na minha falta de siso
E no calor do desejo
Que em meu corpo inflama.

Ai, que vontade de você
Nos meus dias de rotina,
Nos pensamentos meus,
No foco da minha retina,
No script da minha vida,
No aconchego da minha cama.


NO TEMPO DAS BELAS CANÇÕES
(Joésio Menezes)

Gosto não se discute, é verdade,
Mas, não posso aqui ficar calado
Diante da falta de qualidade
Das músicas que tenho escutado,
Pois sou do tempo daquelas canções
Que arrebatavam os corações
De quem estivesse apaixonado.

Sou daquele tempo apaixonante
Em que a letra e a melodia,
Caminhavam como duas amantes
De mãos dadas, em doce harmonia.
E por ser meu peito um saudosista,
Eu sinto falta daqueles artistas
Que fazem música com maestria...

Por onde andará Hermes Aquino
Que fez da sua Nuvem Passageira
Um belo e extraordinário hino
À Música Popular Brasileira?
E Ednardo que, de tão generoso,
Nos deixou seu Pavão Misterioso
De presente, pela vida inteira?

Para onde foi Rolando Boldrin
Que, regido pela noite estrelada,
Fez inúmeras serestas sem fim
Ao som da sua Viola Quebrada?
E se estava Escrito nas Estrelas,
Cadê Tetê, que não consigo vê-la
Nem ouvir sua voz esganiçada?

E como me esquecer de Silvio Brito,
O cara que saiu lá de Varginha
Mostrando a todos o infinito
Amor pela sua triste Casinha?...
Digam-me, por favor, o paradeiro
Do bom-gosto do jovem brasileiro,
Infectado por certas “musiquinhas”!
O MELHOR DA POESIA BRASILEIRA



LUA QUE SE ENCHE DE MIM
(Mário Feijó)

Eu queria ser a chuva
Para adentrar na terra
Ser volátil para no vento
Envolver-me em teu corpo

Ser a luz
Para não prender-me
Ser as ondas do mar
Para no teu corpo me agitar

Ser apenas um homem
Ser putrefato, ignóbil
Frágil, doente, demente
Indecente, carente e temente a Deus

Uma pequena criatura
Cujo prazo de validade já expirou
Que continua existindo
Porque a lua se enche de mim...


AS COISAS
(Arnaldo Antunes)

As coisas têm peso,
massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor,
posição, textura, duração,
densidade, cheiro,
valor, consistência,
profundidade, contorno,
temperatura, função,
aparência, preço, destino,
idade, sentido.
As coisas não têm paz.
CRÔNICA DA SEMANA



O DIREITO DE NÃO AMAR
(Lygia Fagundes Telles)

Se o homem destrói aquilo que mais ama, como afirma Oscar Wilde, a vontade de destruição se aguça demais quando aquilo está amando um outro. O egoísmo, sem dúvida o traço mais poderoso de qualquer sexo, transborda então intenso e borbulhante como água em pia entupida, artérias e canos congestionados na explosão aguda: “Nem comigo nem com ninguém!” Deste raciocínio para o tiro veneno ou faca, vai um fio.
A segunda porta foi a que escolheu aquele meu colega de Academia quando descobriu que a pior das vinganças é não matar, mas deixar o objeto amado viver, viver à vontade, “pois que ela viva!” – decidiu ele na sua fúria vingativa.
Amou-a perdidamente. Acho que nunca vi ninguém amar tanto assim, talvez com a mesma intensidade com que ela amava o primo, disse isso mesmo numa hora de impaciência, estou apaixonada por outro, quer ter a bondade de desaparecer da minha frente? Mas o meu colega (vinte anos?) acreditava na luta e como ele lutou, meu Deus, como ele lutou! Tentou conquistá-la com presentes, era rico. Depois, com intermináveis poemas de amor, era poeta. Na fase final, no auge da cólera – era violento – começou com as ameaças. Ela guardou os presentes, rasgou os poemas, fez a queixa a um tio que era delegado da seção de homicídios e foi cair nos braços do primo sem os recursos da rima e dos diamantes, mas que conseguia fazê-la palpitar mais branca e perfumada do que a açucena do campo.
Meu colega dava murros nas paredes, nos móveis. Puxava os cabelos, “ela não tem o direito de me fazer isso!” Com a débil voz da razão, tentei dizer-lhe que ela bem que tinha esse direito de amar ou não amar vê se entende essa coisa tão simples! Mas ele era só ilogicidade e desordem: “Vou lá, dou-lhe um tiro no peito e me mato em seguida!” – jurou. Mas a tantos repetiu esse juramento que fiquei mais tranqüilizada,  com a esperança de que a energia canalizada para o ato acabaria se exaurindo nas palavras.
O que aconteceu. Uma noite me procurou todo penteado, todo contido, com um sorrisinho no canto da boca, meio sinistro, mas lúcido: “Vou ficar quieto, que se case com esse tipo, ótimo que se casem depressa porque é nesse casamento que está minha vingança. No casamento e no tempo. Se nenhum casamento dá certo, por que o deles vai dar? Vai ser infeliz à beça!” Pobre, com um filho debilóide, já andei investigando tudo, ele tem retardados na família, ih! O quando ela vai se arrepender, por que não me casei com outro? Vai ficar gorda, tem propensão para engordar e eu estarei jovem e lépido porque sou esportista e rico, vou me conservar, mas ela, velha, obesa, ô delícia.
Há ainda uma terceira porta, saída de emergência para os desiludidos do amor, não, nada de matar o objeto da paixão ou esperar com o pensamento negro de ódio que ela vire uma megera jogando moscas na sopa do marido hemiplégico, mas renunciar. Simplesmente renunciar com o coração limpo de mágoa ou rancor, tão limpo que em meio do maior abandono (difícil, hem!) ainda tenha forças para se voltar na direção da amada como um girassol na despedida do crepúsculo. E desejar ao menos que ela seja feliz.